sábado, 25 de agosto de 2007

OS MAIAS

Em Março deste ano, numa sessão da Comunidade de Leitores Almedina, dizia o escritor Miguel Real (autor de “A Voz da Terra” e “O Último Negreiro”) que Eça de Queirós era para ser lido durante toda a vida. Pela minha parte, reli há pouco tempo “O Mandarim”, novela de cariz fantasista, integrando embora uma crítica social e princípios de moralidade, que marca, com a sua publicação em 1880, a rotura queirosiana com o romance naturalista (“O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Bazilio”). Agora, neste Agosto de temperaturas amenas e plácidos encontros com as chuvas estivais, meti-me a revisitar “Os Maias”. Ainda nem cheguei a metade, acabo de fechar a página 251*, final do capítulo VIII, aquele em que Carlos da Maia vai a Sintra, atrás de um rabo de saia, na companhia do maestro Cruges, lá encontrando o sorumbático Eusebiozinho rodeado de espanholas, e o poeta Alencar que fazia uma cura de ares. Neste Alencar parece desenhar-se, embora Eça o tenha negado com veemente ironia, uma caricatura do escritor ultra-romântico Bulhão Pato. O romance é um fresco das contendas literárias da época e dos intricados jogos sociais das classes dominantes. Durante o tempo histórico da Regeneração que a partir de 1851 ficaria marcado pelas obras públicas de Fontes Pereira de Melo, construiu-se uma rede de estradas macadamizadas, lançou-se o caminho-de-ferro e o telégrafo, mas o povo, essa besta de carga que Rafael Bordalo Pinheiro monumentalizaria, não logrou sair do coma profundo do analfabetismo e da miséria em que há séculos vivia mergulhado. O diletantismo da melhor sociedade de Lisboa, desde logo marcado no protagonista Carlos da Maia e no seu amigo João da Ega, prenunciam a acelerada decadência da pátria e os momentos trágicos que as décadas seguintes lhe reservariam: o Ultimato Inglês, a ditadura de João Franco, o Regicídio, a frustrante experiência do republicanismo. Perante a tragédia quase grega da família dos Maias, o que passa em pano de fundo neste romance é essa deriva da pátria e das suas elites, uma caterva de condes e condessas, pares do Reino, negociantes do grande trato comercial e argentários, cultuando Paris e a francesia, acotovelando-se nos estreitos espaços do Chiado e do Aterro, luxando no Hotel Central e no Bragança, nas frisas do S. Carlos e no Café Marrare, em vivências de futilidade e conformismo. Um fulgor baço que não augurava nada de bom.

* Edição “Livros do Brasil”, Lisboa.

1 comentário:

Iharah disse...

Também levo sempre o Eça de férias comigo. Todos os anos lhe descubro uma obra. Este ano foi "A Capital".
"Os Maias" li e reli e hei-de voltar a ler.
De certo modo, tão actual...